quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A realidade de Guirigó

"Quanto vale uma alma?" Guirigó, se perguntava, sem sequer saber direito o que era uma alma, embora já estivesse cansado de escutar. Tratou de indagar ao padre que lhe deu um enfadonho sermão e ainda resolveu por conta própria estender mais o assunto. Falou tão bem dela que por conveniência achou melhor não instigá-lo com a questão capital.
Ouvira no dia anterior que o homem desconhecido e bem vestido que perambulava pela cidade vendera sua alma. Quanto vale uma alma?! Guirigó adoraria descobrir.


I


Quase cinco e meia da tarde foi quando a chuva fraquinha se tornou uma grande tempestade. O céu enegrecera antes do horário normal e toda gente correu para casa; até mesmo os amantes da aguaceira não suportaram muito tempo com toda a ventania. “Sim, será uma noite daquelas”, Guirigó falou consigo mesmo. Logo, logo faltaria luz e o que sobraria pra se fazer era adiantar o sono. Mas ele sabia muito bem que nem sempre seu corpo o ajudava nessa tarefa. Pensou numa maneira fácil de conseguir realizá-la, então se pôs a deitar em sua cama enquanto os pingos pesados se chocavam com o telhado que mais parecia que ia desabar. Talvez fosse mesmo e essa opinião recorria na maioria dos que eram afetados pela intempérie. Sua mãe aos berros, lhe mandava fazer sempre as mesmas coisas, e algumas mais tinham méritos como boa superstição.
No fim, o que lhe acometeu foi mesmo o pensamento que permeou todo o seu dia: Quanto vale uma alma?!!
Soube que significava, como o padre gostou de falar, o sopro divino que nos dava a própria vida, pelo menos era o que ele conseguia lembrar. E, sinceramente, isso não facilitava em nada sua peregrinação até uma resposta satisfatória. Neste caso, um preço satisfatório. Contudo, após tanto “queimar a mufa”, se viu diante de outra pergunta: “Quem compraria uma alma?”. Se não bastasse uma que lhe perturbava a consciência, tinha, agora, que se preocupar com outra mais capciosa.


II


É claro que Guirigó já havia sido informado, do que chamam alguns de “bicho ruim”. Mas por lá ninguém gostava muito de elucidar o que era realmente o dito cujo para a criançada. Só se sabia por eles que era ruim; o encargo de mantê-los nos trilhos ficava mesmo com os outros seres fabulosos. Portanto, qualquer um destes para ele, podia ser um comprador em potencial.
Imaginou por aquele momento ser capacitado para possuí-la, mas não soube o que faria com ela. Mudaria ele de personalidade quando quisesse? Achou interessante a possibilidade e com tal utilidade tinha quase certeza de que era muito cara. De repente, desviou o olhar para fora, pela janela embaçada e observou pobres criaturas que tentavam fugir em vão. Dentre as quais, caninos, aves e outras menos decifráveis. Uma dessas, de sua espécie, pareceu chamar-lhe, quiçá por um pedido de abrigo. Porém, a uma avaliação mais apurada, percebeu que estava a lhe convidar para lá. Guirigó estranhou o fato, olhou novamente e não teve mais dúvidas. O convidador era aquele senhor que, como disseram alguns:
“Num tinha o que fazê e muito menos o que comê, resolveu então vendê alma própria.”
Negócio lucrativo por sinal. Mas não acreditou muito nessa de vagabundagem anterior, bem sabia ele de que as pessoas adoravam inventar e exagerar nos causos. O que evidenciava-se, de qualquer forma, era a elegância, apesar de toda singeleza de homem das pequenas cidades.

Guirigó tinha um vício, e a cada dia, a dose aumentava. Penso eu que, nalgum momento, se desvencilharia. Sua, muitas vezes única, amiga lhe devolvia a leveza e o torpor que tanto necessitava. Fantasiar era seu remédio milagroso.
E assim aconteceu, tal qual a sua vontade...
... dormiu-se em devaneios.


III


“... é que minh’alma, coitadinha, nem mais sabia se existia, ai quis ir simbora de vez, pra ter certeza.”
Desse modo é que a curiosidade de Guirigó fora respondida, mas daquilo nada entendeu e pediu pra que o homem falasse na sua língua.

A manhã era de sol, nem dava a impressão de todo o temporal que assustou o povo por ali e o misterioso senhor encenava um monólogo para seu único espectador, que foi ter com ele para os devidos esclarecimentos. Mas passado poucos minutos, Guirigó já não mais se satisfazia com o discurso de seu interlocutor.
Soube, por fim, que a transação nem havia ocorrido e que o tal sujeito nem se quer acreditava na bendita alma. Isso Guirigó achou um tanto esquisito, porém, como sempre, pra evitar prolongamentos desnecessários aos seus já calejados ouvidos, fingiu compreensão. Talvez não fosse de intelecto como dos grandes cientistas, mas se virava muito bem com o que tinha na cuca.
Assim, foi-se por ai, sem rumo e sem hora pra voltar, a procura de outras questões que ocupassem seus dias, ciente de que nada era mais extraordinário que a própria realidade. E qual seria?

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