<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500</id><updated>2012-01-08T19:04:39.655-08:00</updated><title type='text'>Guirigó</title><subtitle type='html'>Guirigó é a encarnação da falta de consideração entre a tua nobre inteligência, que tudo vê, e a ocultação muito mais que racional do que tudo é e será. Uma fenda, um rosto sem rosto, um buraco no espelho, ou uma porta numa obra de arte pendurada no museu. Encontre Guirigó.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Brazil</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>15</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-5327533026002792428</id><published>2010-09-14T23:11:00.000-07:00</published><updated>2010-09-19T14:35:33.659-07:00</updated><title type='text'>Náusea</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Da terra encantada, somente desejo e nostalgia...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guirigó olhou o horizonte e se sentiu como naqueles filmes carregados de drama. Mas o clichê da cena nada tinha de engraçado, a falta que seu povo lhe fazia era real. Não havia mais as goiabeiras à aterem admiração e nem as meninas dos sorrisos e seus vestidos singelos que lhe arrancavam êxtase e agonia, nem o fogo da mulher vizinha, não havia mais nem a chuva em terra que em lama se fazia piscina, muito menos a doce sensação de ser apenas Guirigó, o encapetado, a peste de menino sem futuro. Agora, o futuro lhe batia a porta com amargo sabor, e a náusea o acometia como único meio, mas era já o fim!! E Guirigó bem sabia...&lt;br /&gt;Seus músculos débeis não mais sustentavam o riso e o rosto envelhecido não escondia tamanho temor.. e Guirigó bem sabia, era já o fim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos deslizaram para a parte mais alta do céu e em seguida esboçou um pedido à algum deus do qual ouvira sempre falar. Mas tudo, para ele, era apenas estranhamento. Repousou, então, o olhar para além das coisas vistas: meio segundo de silêncio, antes que o mundo lhe revolvesse novamente o estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guirigó sentiu-se só e resignado... queria um deus também.&lt;br /&gt;Porém, o que lhe veio fora apenas a ânsia de escrever o primeiro e único poema de sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Caminharei com os pés descalços, pois os velhos e desgastados sapatos, já não me trazem mais a ilusão de um triste conforto.&lt;br /&gt;Caminharei com estes sóbrios pés, com toda dor e paixão que à eles são ofertados por cada coisa que lhes rasga as solas.&lt;br /&gt;O sangue coagulará, e pela terra transbordado, transformará meu percurso em peregrinação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim... não serei mais eu, e não serão mais meus pés.”&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-5327533026002792428?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/5327533026002792428/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=5327533026002792428' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/5327533026002792428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/5327533026002792428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2010/09/nausea.html' title='Náusea'/><author><name>Sel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04378765184483924929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-3003475401330642745</id><published>2010-05-13T13:00:00.000-07:00</published><updated>2010-05-13T13:05:08.308-07:00</updated><title type='text'>Não é por nada, não</title><content type='html'>Guirigó nessa de ler. E lia lia lia. Ajuntava conhecimentos. Pretinho impetuoso, e agora, além de tudo, simpático aos olhos dos outros. Bem visto. Isso já se disse: o moleque só vivia trancado na biblioteca do seu Roberto, cismado de ler. Não queria saber de amizade, interação conversa.  Estava era focado. Queria engolir tudo duma vez, nem mastigava. Problema foi que seu Roberto tinha um filho de quatro olhos, pele pálida e expressão cinza. Quase que ninguém conhecia o guri, de tanto que ele vivia enfurnado em casa. Até que certo dia, enquanto os dois dividiam a fechada sala dos livros, cada um de cara enfiada no seu, se fez um barulho fininho que foi um estrondo. Ritual quebrado! Lápis cotoco do pretinho que caía no chão, rolava rolava e parava no pé da mesa do quatro-olhos. Esse que olhou, pensou se, pegou e andou até o pretinho, já conhecido e admirado por ele das histórias de traquinagem que ouvia o pai contar. Era por pura timidez que nunca tinha abordado Guirigó, agora freqüentador assíduo de todo dia toda hora na sua casa. “- É teu?” “- É.” Gesto e silêncio. “Bem te conheço...” “É? Pois nunca que te vi”. “Raimundin, meu nome” Guirigó achou muita graça dos gestos curtos e enferrujados, e daquele assessório de velho apoiado no nariz do moleque. Apesar, sentiu simpatia. Deu brecha. Dali pros dias adiante foram ganhando intimidade. Conversavam mais era das coisas de livro, Raimundin sabia muito. Aqueles papos de teoria, de contas, de histórias muito velhas. Guirigó admirado, chegou a perguntar se aquele negócio de duas lentes apoiado no nariz tinha algum poder mágico, de fazer saber das coisas. Raimundin quatro-olhos muito se riu, desengonçado, como se não acostumado a isso, e disse que não. Amizade essa estranhada por seu Roberto, os dois tão diferentes. Trocavam idéias. Idéia dessas sem muito fundo, de papo furado. Até que Raimundin perguntou por quê de Guirigó ter largado aquela vida tão solta pela rua, de fazer o que quiser, numa liberdade de calar ou gritar. Guirigó isso não soube responder. E isso ficou rebatendo na sua cabeça. Feito pensamento não formado, idéia em feto. Noutro dia retrucou: “Não é por nada não, mas e tu, por que é que não sai de casa? Nunca te vi na rua...” E isso ficou rebatendo na cabeça de Raimundin, que também não soube resposta. Vida que não dá pra explicar. Será que os dois pensaram? Só eram assim por simples ser. E os livros? Eles explicavam, baseados até no dia de nascimento, na posição das estrelas. Forjavam até personalidade, baseados nuns papos de psicologia, e em algumas muitas outras coisas. Tudo tinha explicação, e dava pra saber o porquê de ser assim assado. Mas os dois não entendiam dessas explicações que não estavam na cara. Porque tudo tá na cara. Mistério, escuro, verdade no altar? Embromação, né não? Parecia que era. E um embrião de crise com os livros se instalava? Ah, não. Afinal, foram eles, uniram os dois tão diferentes, nesse papo clichê. Assim, bem rimadinho com a vida, que se vive bem mais clichê. Ficaram continuando lendo e sem dar já tanta importância à leitura. Virou ritual, coisa de se fazer todo dia, cotidiana neutra. Quiçá mecânica. Raimundin falava das teorias dos outros, dessas coisas de que ele já entendia, e Guirigó, pretinho meio ruim de compreender e cabeça muito dura, não tinha ainda assimilado. Por outro lado, Raimundin começou a andar na rua, junto de Guirigó, que lhe ensinava a chutar bola, andar percebendo as paisagens, e até tragar uns cigarros, molhar o bico na caninha. Isso sim já se esperava, afinal se vive pra se relacionar. E trocar. E aprender. Clichê. Isso é. Mas nem por isso é repetido. Viver num tanto do outro pode ser muito inédito. Isso também é clichê, foram os dois descobrindo conforme liam uns livros de estória, empoeirados e esquecidos, soterrados pelos livros cheios de teorias, e reconheciam o retrato do que viviam nas palavras desses caboclos que eles nunca conheceriam, mas que os conhecia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-3003475401330642745?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/3003475401330642745/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=3003475401330642745' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/3003475401330642745'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/3003475401330642745'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2010/05/nao-e-por-nada-nao.html' title='Não é por nada, não'/><author><name>rafa ou el</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06989135177034880295</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-5221710557998201796</id><published>2010-02-20T20:31:00.000-08:00</published><updated>2010-02-20T20:58:50.426-08:00</updated><title type='text'>Batismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em uma cabeça - uma alma -, mil coisas podem ser nenhuma. Sendo o oposto no mesmo também possível: uma coisa ou coisa nenhuma podem ser mil.&lt;br /&gt;Do velho garoto tornado e tornando-se - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;vareiando - &lt;/span&gt;uma cabeça é pouco. A cuia transborda e esse transbordamento nem sempre é visto: o encanto é para poucos. Fosse o mundo feito apenas de encantados, a terra desabava no céu. Fosse ele feito apenas de encantadores, seria o céu quem desabava na terra. E multiplicariam-se assim os acidentes nas ladeiras, nas esquinas e nos rios com toda a beleza do que vê os olhos daqueles que se apaixonam. Quem sabe assim o sangue não tivesse um sabor doce que aniquilasse de vez a distância entre a vida e a morte, sendo possível amar e até mesmo desejar tanto as maiores dores quanto as maiores alegrias.&lt;br /&gt;Uma figura que vive assim, que não é nem boa e nem má, sendo boa e/ou má independente para quem, por que ou quando, está finalmente entregue. A esse estado de situação deu-se o nome de Guirigó. Ele - o lugar, o menino -, de onde exortam-se as maiores ingenuidades, e igualmente as maiores espertezas. Ele, o menor de idade, o menos instruído, o não-filho, jogado no paradoxo: o que mais vive, o mais sábio (socraticamente), o mais certo.&lt;br /&gt;Quero então falar de um Guirigó que espera, um Guirigó do silêncio: é que foi feita uma descoberta, uma visão que lhe deu fascínio, e agora ele espera para verde novo. Uma goiabeira ao pé de um morro, carregada de goiabas madurinhas cujo vento forte nos galhos as derrubava e acertava algumas poucas -bem poucas- numa pedra que se extendia próxima à árvore. Essa visão testemunhada uma só vez lhe encheu de desejo de novamente ver, e isto lhe custava dias inteiros. A recompensa durava bem menos que um segundo, mas era o momento, o momento especial da vida. A goiaba estatelava-se, multiplicava-se, transfigurava-se em manchas vermelhas espalhadas sobre e ao redor da pedra.&lt;br /&gt;Como não queria catar as da árvore - num gesto que evitava diminuirem as chances do acerto pedra/fruta acontecer -, Guirigó comia as que caía do chão, se alimentando assim das Goiabas que erravam o alvo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho óbvio para esse Guirigó seria a poesia. Seria fazer do encantado um encantador, e multiplicar o breve momento do encontro da pedra com a goiaba infinitas vezes.&lt;br /&gt;É este um destino imenso. Todas as forças vitais de um moleque concentradas numa efemeridade dispensável. Certa vez teria ele mesmo ouvido num rádio acerca de maravilhas retumbantes criadas pelo homem. Isto deixou-o intrigado, pois estátuas imensas e igrejas deslumbrantes não compunham o cenário do maravilhoso. Num mundo de algumas dezenas de rostos repetidos e outros inúmeros rostos passageiros, uma praça e uma igreja com seu padre chato não ofereciam deslumbramento algum: o menino estava vazio do homem.&lt;br /&gt;E ele que estava habituado a contar histórias, naturalmente agora procurava palavras para dizer o não dito. E o que seria, o que deveria ser feito para isto?&lt;br /&gt;Talvez já houvesse ali toda a resposta, delicadamente moldada pelo silêncio e pela espera. Com o tempo, Guirigó compreenderia que agora renascia, que tinha de inventar outras palavras, porventura perderia algo de sua ingenuidade (e ganharia outras), e crescia nele, sobretudo, uma vontade do que outrora renegara: ler.&lt;br /&gt;E facilmente compreendeu que a palavra que ele tanto queria não era porventura posterior; que aqueles poemas e outros textos que ele lia de frente para a goiabeira (vez ou outra em voz alta), não descreveria o que viam, mas abriam a própria porta do mundo indizível - era a palavra o próprio mundo. A transfiguração do mundo era já a transfiguração do próprio Guirigó.&lt;br /&gt;Em uma de suas primeiras anotações lê-se: "O homem não cria maravilhas, é a própria possibilidade de criar, a maravilha por si", e pouco mais abaixo: "No princípio era o verbo, mesmo".&lt;br /&gt;De tantas a quantas foi o Gurigó já não cabe mais dizer, o que se sabe é que aquele tempo em silêncio e em espera na busca de palavras foi o seu batismo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-5221710557998201796?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/5221710557998201796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=5221710557998201796' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/5221710557998201796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/5221710557998201796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2010/02/batismo.html' title='Batismo'/><author><name>Brazil</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-7376847766280814844</id><published>2009-12-24T23:00:00.000-08:00</published><updated>2012-01-08T19:04:39.673-08:00</updated><title type='text'>A realidade de Guirigó</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;"Quanto vale uma alma?" Guirigó, se perguntava, sem sequer saber direito o que era uma alma, embora já estivesse cansado de escutar. Tratou de indagar ao padre que lhe deu um enfadonho sermão e ainda resolveu por conta própria estender mais o assunto. Falou tão bem dela que por conveniência achou melhor não instigá-lo com a questão capital.&lt;br /&gt;Ouvira no dia anterior que o homem desconhecido e bem vestido que perambulava pela cidade vendera sua alma. Quanto vale uma alma?! Guirigó adoraria descobrir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;I&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quase cinco e meia da tarde foi quando a chuva fraquinha se tornou uma grande tempestade. O céu enegrecera antes do horário normal e toda gente correu para casa; até mesmo os amantes da aguaceira não suportaram muito tempo com toda a ventania. “Sim, será uma noite daquelas”, Guirigó falou consigo mesmo. Logo, logo faltaria luz e o que sobraria pra se fazer era adiantar o sono. Mas ele sabia muito bem que nem sempre seu corpo o ajudava nessa tarefa. Pensou numa maneira fácil de conseguir realizá-la, então se pôs a deitar em sua cama enquanto os pingos pesados se chocavam com o telhado que mais parecia que ia desabar. Talvez fosse mesmo e essa opinião recorria na maioria dos que eram afetados pela intempérie. Sua mãe aos berros, lhe mandava fazer sempre as mesmas coisas, e algumas mais tinham méritos como boa superstição.&lt;br /&gt;No fim, o que lhe acometeu foi mesmo o pensamento que permeou todo o seu dia: Quanto vale uma alma?!!&lt;br /&gt;Soube que significava, como o padre gostou de falar, o sopro divino que nos dava a própria vida, pelo menos era o que ele conseguia lembrar. E, sinceramente, isso não facilitava em nada sua peregrinação até uma resposta satisfatória. Neste caso, um preço satisfatório. Contudo, após tanto “queimar a mufa”, se viu diante de outra pergunta: “Quem compraria uma alma?”. Se não bastasse uma que lhe perturbava a consciência, tinha, agora, que se preocupar com outra mais capciosa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É claro que Guirigó já havia sido informado, do que chamam alguns de “bicho ruim”. Mas por lá ninguém gostava muito de elucidar o que era realmente o dito cujo para a criançada. Só se sabia por eles que era ruim; o encargo de mantê-los nos trilhos ficava mesmo com os outros seres fabulosos. Portanto, qualquer um destes para ele, podia ser um comprador em potencial.&lt;br /&gt;Imaginou por aquele momento ser capacitado para possuí-la, mas não soube o que faria com ela. Mudaria ele de personalidade quando quisesse? Achou interessante a possibilidade e com tal utilidade tinha quase certeza de que era muito cara. De repente, desviou o olhar para fora, pela janela embaçada e observou pobres criaturas que tentavam fugir em vão. Dentre as quais, caninos, aves e outras menos decifráveis. Uma dessas, de sua espécie, pareceu chamar-lhe, quiçá por um pedido de abrigo. Porém, a uma avaliação mais apurada, percebeu que estava a lhe convidar para lá. Guirigó estranhou o fato, olhou novamente e não teve mais dúvidas. O convidador era aquele senhor que, como disseram alguns:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Num tinha o que fazê e muito menos o que comê, resolveu então vendê alma própria.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Negócio lucrativo por sinal. Mas não acreditou muito nessa de vagabundagem anterior, bem sabia ele de que as pessoas adoravam inventar e exagerar nos causos. O que evidenciava-se, de qualquer forma, era a elegância, apesar de toda singeleza de homem das pequenas cidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guirigó tinha um vício, e a cada dia, a dose aumentava. Penso eu que, nalgum momento, se desvencilharia. Sua, muitas vezes única, amiga lhe devolvia a leveza e o torpor que tanto necessitava. Fantasiar era seu remédio milagroso.&lt;br /&gt;E assim aconteceu, tal qual a sua vontade...&lt;br /&gt;... dormiu-se em devaneios.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“... é que minh’alma, coitadinha, nem mais sabia se existia, ai quis ir simbora de vez, pra ter certeza.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Desse modo é que a curiosidade de Guirigó fora respondida, mas daquilo nada entendeu e pediu pra que o homem falasse na sua língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã era de sol, nem dava a impressão de todo o temporal que assustou o povo por ali e o misterioso senhor encenava um monólogo para seu único espectador, que foi ter com ele para os devidos esclarecimentos. Mas passado poucos minutos, Guirigó já não mais se satisfazia com o discurso de seu interlocutor.&lt;br /&gt;Soube, por fim, que a transação nem havia ocorrido e que o tal sujeito nem se quer acreditava na bendita alma. Isso Guirigó achou um tanto esquisito, porém, como sempre, pra evitar prolongamentos desnecessários aos seus já calejados ouvidos, fingiu compreensão. Talvez não fosse de intelecto como dos grandes cientistas, mas se virava muito bem com o que tinha na cuca.&lt;br /&gt;Assim, foi-se por ai, sem rumo e sem hora pra voltar, a procura de outras questões que ocupassem seus dias, ciente de que nada era mais extraordinário que a própria realidade. E qual seria?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-7376847766280814844?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/7376847766280814844/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=7376847766280814844' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/7376847766280814844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/7376847766280814844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/12/realidade-de-guirigo_24.html' title='A realidade de Guirigó'/><author><name>Sel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04378765184483924929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-5308918791340644965</id><published>2009-11-13T08:59:00.000-08:00</published><updated>2009-11-13T09:07:36.381-08:00</updated><title type='text'>O aprendiz</title><content type='html'>Guirigó aprendeu a ler. E não sabia? Parece que não. Aprendeu ensinado? Vai saber... Talvez pelas migalhas que ele tentava catar das aulas na escolinha que caía aos pedaços. Ou então do nada? Do nada. Belo dia tudo fazia sentido, o antes amontoado de símbolos desregrados agora passava mensagem. Por ali aconteciam milagres. Pois é... O que se sabe, é que o  moleque parecia não saber, e agora sabia; ler. Como sabia-se? E não era que ele não saía da frente da escola, da banca, da farmácia, da casa do seu Roberto, que diziam ter uma biblioteca de livros irrelevantes. Não dispensava bula de remédio, cartaz no poste, propaganda, jornal, revista, verso de xampu. Lia e lia e lia. E todo mundo muito admirado. E o moleque atrás de qualquer pedaço de papel escrito. Qualquer símbolo, qualquer sentido. Guirigó queria mesmo era praticar sua nova descoberta. Relia, relia. O padre, esperto como só, deu-lhe logo uma bíblia. “Lê meu filho, é a palavra do Senhor, é a salvação!” E o guri feliz, trocentas folhas, capa e contracapa. Um livro de verdade. E se pôs a devorá-lo. “Ih, andam dizendo que aquele capetinha agora lê, e lê é a bíblia. Ora, vê se pode?!” E não era só: lia o jornal. Ou melhor, lia as manchetes. E foi aprendendo que existiam mais lugares pra além da sua cidadezinha. Lugares outros, com acontecimentos de muitas várias coisas. E ele tão ali, tão dali, tão satisfeito com o grandão do céu, com o sopro de vento, com a pelada do campo, com as árvores tão sós, começou a se sentir insatisfeito. Tinham muitos mais lugares por aí! Isso tudo aqui, é só um tiquinho, uma migalhinha. Existe até vida pra depois da vida, pra depois de tudo isso que eu faço aqui, mais do que dia depois outro, depois outro, e mais outro dia, tem uma tal de vida. E isso é conceito construído e registrado! Tem gente que até a perde. Assim, do nada vem algo. Pimba! Mas ó, pode ser que daí não acabe, a Bíblia diz de céu e paraíso! Se eu fizer tudo certinho, eu vou pra lá. Ah, se vou. Paraíso era um nome tão bonito, lá deviam de ter muitas mulheres da vida pra gente namorar, muita atiradeira pra matar calango, muita pipa, pião, muito torresmo com feijão. E televisão pra assistir e colchão macio pra hora de dormir. E ele, que nunca teve nada disso, pode por lá ter! Esse livro grandão ensina tudo, tudinho. Eu vou por ele! E Guirigó parou na porta da igreja, o padre viu, mandou entrar. Ressabiado, sim. E mais que ele, as beatas, já tantas vezes vítimas das capetices do menino. Mas ele dessa vez respeitou, sentou quieto, contradizendo a sua natureza, e ouviu o sermão do início ao fim, muitíssimo interessado. O padre gostou, suspirou. “Esse menino tem salvação!” Nas semanas seguintes, Guirigó já freqüentava a missa com assiduidade e interesse crescentes. Arrumou uma camisa de sair e uma calça meio curta, mas muito elegante. Um sapatinho brilhoso e uns números além do seu. Uma gravatinha grená e a alma limpa. As beatas e a bíblia que lhe deram. Nada mais de pipa, pé sujo pelo chão, cochilo pelos cantos da praça. Agora Guirigó passava o dia na biblioteca de seu Roberto, lendo teorias e decifrando mundo. E à noite ia à missa, escutar as palavras bonitas e as promessas do seu padre.  Guirigó ganhou então uma lente e um afastamento. Ele antes tão víscera, tão vida e sujeira, tão vivo, agora decifrava e interpretava de acordo com o que os livros diziam. Tudo à volta ganhava teoria, ganhava sentido, ganhava amarra. E o guri agora usava brilhantina no cabelo, goma na camisa e em cima de tudo o que lhe diziam, ele tinha uma referência. Fulano disse isso, cicrano já descobriu isso, não, não, não sei onde, não fica lá pra riba, é lá pro sul. Referência, orientação. O moleque parecia uma enciclopédia. Sabia daqui e do além, do paraíso. O padre disse que para lá ele ia, e quase que o guri não se agüentava de ansiedade. Ia perdendo sua pureza, sua inocência, sua poesia? A vida agora era de signos, de significados ensinados. E muita, muita expectativa e projeção. O espanto, a beleza da estréia iam se perdendo. A espontaneidade da vida ia ficando pelo caminho. Há quem diga que o moleque nem mais olhava pro céu, pra ver se vinha chuva ou sol pro outro dia. A lua, antes destinatária de assovios e angústias, agora satélite cinza, sem graça pairava no alto. Não ligava mais pras festas nem pros sambas, não aprontava traquinagens, não levantava saia de mocinha nem roubava cachaça de capiau bobão. Agora o pretinho era um estudioso, se preocupava com suas ações, em se manter limpo e comedido. Desse jeito ganhou a simpatia das pessoas e virou praticamente o talismã das beatas. Lhe davam o de comer, lhe arrumaram um quartinho pra dormir, com fronha limpa e lençol cheiroso. Banho? Agora era duas vezes por dia, e quando frio fazia, era morninho. Escovava os dentes, assoava o nariz e penteava o cabelo. Nunca mais admirou o vôo louco das borboletas nem o cantar dos passarinhos. Nunca mais prestou atenção pra esses coisas tão bobonas, tão correntes, tão irrelevantes. Nos livros tinha tudo, já haviam observado isso por ele, conceitualizado e domesticado as atitudes, os sentimentos, e o mundão que ele achava vasto só pelo que via, agora era pequeno. Continuava imenso só  porque ele sabia que tinha mais, por que imaginava as coisas que lia, as projetava. Agora pra Guirigó tudo tinha um fundo e uma conseqüência. Guirigó se transformava num menino de cultura. E o que mais se ouvia pelos bares, pelas lojas, pela praça, pelos certos e errados da cidadezinha era: “É, demorou, mas parece que agora o menino cresceu. Guirigó tá virando HOMEM!”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-5308918791340644965?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/5308918791340644965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=5308918791340644965' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/5308918791340644965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/5308918791340644965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/11/o-aprendiz.html' title='O aprendiz'/><author><name>rafa ou el</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06989135177034880295</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-8093747897332295335</id><published>2009-10-26T10:54:00.000-07:00</published><updated>2009-10-26T10:59:05.720-07:00</updated><title type='text'>Forma de Dragão.</title><content type='html'>Ontem eu comi uma ostra, uma ostra feita de açafrão.&lt;br /&gt; Vermelho.&lt;br /&gt; Feito sangue mensal de mulher. Fiquei voando, assim. Depois fui andar pertinho do rio, tinha borboletas. Uma era azul com as asas flamejantes. Riscava o céu e deixava um rastro de fumaça atrás dela. O seu rabo, pequena chama laranja, caiu em meu chapéu e eu acendi o meu cigarro. Ah sim, meu cigarro tem nome. Ele se chama Sinhôran.&lt;br /&gt;Sinhôran vive na minha boca a me suscitar bobagens, blasfêmias, batuques e saliva amarga que eu gosto de engolir. Mas eu só gosto de engolir saliva amarga, as blafêmias, eu engulo para que não pularem para o resto do mundo e se transformarem em fiapo de brasa doida em mato verde.&lt;br /&gt; Eu adoro um mato verde e adoro Sinhôran.&lt;br /&gt; De madrugada, depois do passeio perto do rio, eu sentei no alto de uma ribanceira e estava como que a um palmo do céu - ainda bem que não era de manhã, o sol me faria suar demais. Sentia um fedor enorme. Uma nuvem tenebrosa e pálida se esfregou em mim, um silêncio chato e grande demais tomou conta da ribanceira inteira, estranhei. Meu corpo tremeu. De repente, sair rolando ribanceira a baixo e meu cavalo me levou para tomar um banho, estava precisando. Aprendi. Não tem necessidade, só perigo, me aproximar tanto do céu.&lt;br /&gt; Amanhã vou viajar. Vou de carro de boi. Carro de boi tem forma de dragão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-8093747897332295335?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/8093747897332295335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=8093747897332295335' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/8093747897332295335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/8093747897332295335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/10/forma-de-dragao.html' title='Forma de Dragão.'/><author><name>Paulo Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03516270925037895957</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_sIaCfev0rVo/SupD-8V9UZI/AAAAAAAAAAM/MIy53QUL7rM/S220/PAULO+MARTINS+OK.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-1241102611933285621</id><published>2009-07-21T20:55:00.000-07:00</published><updated>2009-07-21T22:16:03.900-07:00</updated><title type='text'>Zé Dendágua</title><content type='html'>Guirigó nunca teve problema com a sua guiriguisse. Para alguns ele era Guirigó até demais, mas ele mesmo era só Guirigó. Seu tamanho nunca foi medida para as consequências dos seus atos, de tal forma que para alguns ele tava mais era para bandido-marginal merecedor de voz de cadeia do que meninisse na curva da ingenuidade. Assim sendo, era ele de cá e os outros de lá, a gente bem sabe disso. E numa dessas fez-se de o metro-e-vinte bandear distância qualquer. E foi mesmo. Parou foi na Baía de todos os santos (com a chegada de Guirigó, mais um diabo), nos mares grandes e desconhecidos pela gente de lá d´onde nasceu. E, se vindo do toco de gente que era, sempre foi o mistério de onde saía tanta, mas tanta molequeza, igualmente foi como ele parou lá em tanta distância. Talvez caiba aqui notar que os tantos e as distâncias entre o Guirigó e o mundo fossem tais, que seria indiferente o cá e o acolá. E assim, Guirigó encontrou o mar, e o mar encontrou Guirigó. A praia? Dos que dizem e ouviram conta-se que o filho-do se encontrou com as criaturas marítimas, c´as tartugas nadadoras, gigantes e chocadeiras! Quem contou primeiro foi o Joalin, levantador de paredes, que aceita trabalho até nas grandes distâncias. Conta que ele nas tartugas se agarrou e deixou que o levassem até onde elas fazem o ninho, igual os passarim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Das primeiras coisas que sempre se soube do muleque era seu gosto e cuidado com passarim. Nem o estilingue ele deixava que atirassem mais. Quando deparou com as criaturas ele disto deve ter se alembrado e pensado mais que elas eram os pássaros do mar. Ô mas que o muleque tinha que ter razão, e foi pra água sem saber nadar nem nada, só pra ver as tartuga nadar debaixo d´água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que se conta, da parte que chega, era que o muleque até que tinha razão mesmo, que das tartuga só faltava o canto do pio. E aí, o que o Guirigó fez, ô Joalin?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, é aí que a história melhora: parece que diferente dos passarim também, as tartuga num ficam pra chocar os ovinhos, não. E o Guirigó, aquele pretinho, queria desenterrar os ovos pra esquentar igual fazem as chocadeira. Mas não custou pra ele entender que era diferente, mas largou os ovinho com muito custo, achando que não iam chocar. Quê de dois mes depois nasceram os fiotin, e o Guirigó ficou num contentamento sem igual. Ah, mas que ele queria até era ensinar os pequenos a cantar canto de pio de pássaro. E não se controlou quando viu que um monte dos bichin morre quando vão correndo pra praia nadar. Tentou, mas tentou salvar tudo, com lágrima escorrendo, foi uma tristeza só. Naquele dia ele deve ter entendido que é assim mesmo. Só que morre de ódio até hoje do tal do caiangueje, um bicho esquisito que mora debaixo da areia e tem pata de gancho, e mais dois ói arrebitado que olha pra tu, sempre em pose de combate. E também aprendeu a desgostar de um pássaro gritador, de bico amarelo, que parece um gavião vestido de branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o tempo fosse mesmo amigo do Guirigó, parece que ele ficava era por lá mesmo, deixando que o sal do mar dissesse quem ele era. Mas as coisas não tem determinação precisa mesmo, e se o mistério da partida do pequeno parecia não ter solução, foi essa tal notícia - já famosiando e virando lenda, quase uma tradição oral contada em hexâmetros datílicos -, foi essa tal notícia quem revelou alguma coisa para o desentendido da partida. Parece que algumas pessoas quiseram se ajuntar ao pretin lá na Baía, e conseguiram o feito, à base de carona, paradas em cidades distantes para uma esmola, outrora um ônibus de uma região a outra, caminhadas longas em beira de estrada, até a tal da praia com tartuga nadadora. Dos que foram, a princípio uns cinco ou seis muleques que desaprenderam as malícias e brincadeiras e sentiam saudades do mestre, e mais um bêbado velho que não tinha mais o que fazer, chegaram dois. O velho morreu no meio do caminho - atropelado - e dos muleques, um deles era um tal de zé, e já se esqueceu se zé era o nome dele mesmo ou se era pela incorporação do apelido típico e usual, zé dendágua. O outro era colega do Guirigó mesmo, e de algum modo não iria incomodar, mas o zé dendágua...foi só se chegar na terra e encontrar o pretin atarefado com sua nova vida de encantador de tartuga, que tudo mudou. Agora já não importava mais elas, os passarim do mar, as tartuga, nem os filhotinhos brotando da areia, miniaturas, que ninguém nem explicou que eles tem que ir pra água nadar que eles já sabem de tudo; foi só o zé chegar que nada mais importava, era preciso ir-se embora. E expressão miúda do muleque ficou grosseira, de emburramento sem cura, era preciso uma solução; uma fuga era o mais imediato, mas aí o dendágua ia atrás, chegava até de volta: "se chegou inté´qui..." dizia pra si mesmo o pequeno, que logo percebeu o gosto do zé mais o outro amigo com as tartuga. E começou a ensinar a eles tudo o que sabia sobre elas, sobre os inimigos naturais delas: que tinha de tudo pra matar fiote de tartuga. E ensinou tudo do mar, e das areias, dos bichin que existiam lá, e nas pedras e dentro do mar, e passou o dia contando causo e mostrando e levando aqui acolá, adentraram a noite na conversa, e quando a deusa dos róseos dedos iluminou a primeira aurora, os dois amigos, o zé dendágua mais o outro, eram grandes entendedores e de tudo sabiam da nova vida nos mares salgados. E dali mais uma semana com eles, Guirigó sabia que eles não iam embora nunca mais, que aqueles dois eram agora pescadores, sertanejos pescadores, de fiar rede e passar semana em barco pescando. Agora Guirigó podia voltar pra casa, a distância do dendágua. E foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mistério do ir repousa também o mistério do vir, de um dia pro outro aquela cidade apareceu com o jovem velho conhecido pretinho cagador, amante das raparigas e bom de bola, que levava jeito pra herói de histórias e servia de inspiração para um ou outro letrado poder ter o que fazer. E no que pisa a terra de volta, Guirigó já rodeia a redondeza, dos brejos à praça da cidade ouvindo e cantando junto com a passarada que o esperava ansiosamente, cheia de saudades.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-1241102611933285621?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/1241102611933285621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=1241102611933285621' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/1241102611933285621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/1241102611933285621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/07/ze-dendagua.html' title='Zé Dendágua'/><author><name>Brazil</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-802343033425190077</id><published>2009-04-21T11:30:00.000-07:00</published><updated>2009-04-21T11:46:29.622-07:00</updated><title type='text'>Rotineiro</title><content type='html'>O dia passou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início ele prometeu ser lindo. O sol que nasceu amarelo iluminou de frescor o lugar. A partir daí cada um abandonava sua cama, seguindo ordem ou causa. Uns despertavam no cantar do galo, outros, mais naturalistas, só respeitavam o fastio do próprio sono. Outros seguiam motivos mais pontuais. Certa senhora, insone, noite perdida em claro a contemplar o hino dos grilos, era aliviada que recebia o primeiro raio de sol. Na outra esquina, outra senhora, também insone, havia perdido a noite velando o ronco alto do marido, e era com ódio que tomava consciência da noite em claro, e a separação era caso, agora mais do que nunca, resolvido. Na casa de janela grande, certo moleque não agüentava o recado do sol, que enchia seu quarto de luz,  e avisava que era hora da rotina. &lt;br /&gt;Aí vinha a hora do desjejum, do pão com manteiga, do café com leite. Tudo ali seguia o roteiro da simplicidade. As coisas nesse lugarejo impensado aconteciam por simples continuação de fatos desencontrados. Tudo acontecia por que sim, implicando-se a si mesmo, e independendo de si próprio. A calma, a serenidade e a dependência da sorte; as rixas que perduravam, os motivos esquecidos, os amores não vividos; a cueca suja, a meia encardida; a barba por fazer, as olheiras a disfarçar, a raiva a abafar; tudo isso é rotina, é vida, e por ali, acontecia porque sim, e sabe-se lá desde quando.&lt;br /&gt; Café tomado e cara lavada. Dentes escovados e o lugarejo desperto. A partir daí a rua vivia, um e outro ia saindo, encontrando compadre, dando bom dia. As lojinhas mutiladas rangiam suas portas, as folhas ficavam mais verdes, a poeira mais alta, o céu mais azul; e as torneiras rugiam, enquanto as donas-de-casa lavavam a roupa do marido e da molecada, e trocavam palavras por cima do muro baixo. Os copos dos bêbados convictos começavam a se encher, os cachorros passeavam sem rumo e os gatos iam dormir; os pregadores assumiam seus postos na pracinha e a moça mais bonita da cidade adoçava o ar por onde passava e fazia malandro torcer o pescoço; enquanto os sentimentos mais puros cochilavam nos peitos, o fulgor se esvaía e o lugar refogava na sutileza da rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma boa manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí veio a hora do almoço, hora de parar. É, por ali tudo parava pra hora do almoço. O tilintar dos talheres ressoava em uníssono, os dentes mutilavam carnes e a roça terminava sua missão, morta na boca. Depois batia aquele sono, aquela moleza. E todo mundo; sim, todo mundo tirava sua sesta. Tinha moleque que entrava em rixa com a mãe. Ora, o guri não quer saber de dormir. Já não basta a hora do almoço, hora que quebra a manhã de brincadeiras, de bicudas na bola, de pião no asfalto, agora vinha a hora do cochilo. Mas moleque não quer saber de cochilo, quer ir pra rua; mas ah, o que se há de fazer?, a mãe obriga. Tem que dormir! Quinze minutinhos, cinco que fossem... e a molecada ia, a contragosto, fechar os olhos, contar o tempo nos dedos e levantar antes dos três, se dizendo descansada e pronta pra tarde promissora. Mas a cidade dos homens ainda boiava no torpor das duas da tarde. Hora mais estática, mais sufocante, mais angustiante do dia. Folhas todas paradas, telhas quentes, asfalto e barro seco fumegantes, e a sesta era uma mistura de trégua e suor.&lt;br /&gt;Enquanto isso nada de nuvens se acumulando pelo céu, e a volta ao trabalho ou a continuação da bebericagem no boteco era saldada por uma lona azul límpida. A tarde, então, transcorria sem grandes alardes.&lt;br /&gt; Por ali a escolinha só tinha aula à tarde, e ensinava, muito mal, a ler e escrever. Por essas horas havia uma movimentação tímida pelos seus arredores. Os freqüentadores da escola, diziam por ali, eram todos uns pobres sonhadores, uns iludidos, que ainda tinham fé ou esperança na erudição, no aprender alguma coisa por meio daquelas letrinhas embaralhadas. &lt;br /&gt;Tanto faz na escola ou no puteiro, no curral ou na sala do delegado, na primeira casa depois que passa o campinho ou na cabeça da menininha virgem e apaixonada, a tarde naquela cidade malfadada parecia durar uma eternidade. Só se ouviam uns poucos pássaros cantores, uma caminhoneta velha entregando gás, uma ou outra música cafona enchendo o coração de um corno ou outro, e o ronco do prefeito, que de pernas pro ar, estendia a sesta pela tarde inteira, gozando, diziam, da única vantagem de ser prefeito por ali: o ar condicionado. &lt;br /&gt;O transcorrer da decaída do sol pelo céu começava a ser acompanhado por uma brisa leve, que chacoalhava as folhas das amendoeiras da rua, e fazia voar o pó acumulado nos postes e placas. Lá pelas cinco, a tarde era quase agradável. Os passarinhos cantavam felizes e agitados, cada qual procurando seu lugarzinho no galho pra dormir. Os comerciantes, o moço da farmácia, o do açougue, o da casa de material de construção e o da mecânica, eram tomados por uma quase satisfação, já que a hora de ir embora estava perto. O bar começava a receber os amigos em busca de papo furado, e os encontros mais inesperados e os diálogos mais inusitados vez por outra se davam por ali.  &lt;br /&gt;O anoitecer era vermelho e quase mudo, se não fossem as cigarras anunciando o mesmo sol pro outro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi mais uma tarde das muitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite, então, veio, como conseqüência natural da tarde, que havia sido a conseqüência natural da manhã. Quando o sol se punha, alguns seres enfurnados e anônimos durante o dia, povoavam as ruas, e algumas das figuras matutinas travavam encontros promissores com elas. Saíam, à noite, acima de tudo, muitos mosquitos. Mas eram muitos mesmo... e mais alguns cupins que ficavam num sobrevôo inquieto em volta da luz dos postes. Na verdade, desses aí o pessoal não gostava muito. Boas mesmo eram as moças cheirosas, de cabelo molhado, boca colorida, unha comprida e papo mole que apareciam pelas esquinas. Tinha nego que passava o dia inteiro sonhando com elas. Diziam pelas redondezas que naquele lugar as quengas eram as melhores.&lt;br /&gt;Lugar que parecia só funcionar bem à noite, era o bar. O da sinuca então, que ficava do lado da casa do Nestor, era sempre o mais cheio. E era papo pra lá, cerveja pra cá. E sinuca acolá, e pinga de cá. O lugar aparentemente ficava muito animado. Mas, na verdade, era só um bando de marmanjos, reclamando, chorando as pitangas e agruras do dia. Uns se diziam engabelados por certo cliente espertalhão, outros reclamavam da falta de eficiência no atendimento do banco. E a merda que estavam as laranjas no sacolão, e o filho da puta do patrão, e aquele centroavante perna de pau. Uns mais sensíveis despejavam suas chagas mal curadas e seus amores mal resolvidos nos ouvidos amigos. Às vezes também pipocava uma briga, e quase sempre por causa de mulher. Mas hoje não, briga não ia acontecer por ali; estavam todos neutros, meio tranquilos e desanimados, só preocupados em beber sua cerveja, discutir o jogo de domingo e as probabilidades de chuva pros próximos dias.&lt;br /&gt;E a noite assim ia acabando. Uns crentes iam à igreja, uns namorados visitavam a namorada, uns barrigudos jogavam uma pelada no campo, uns moleques fumavam escondidos na praça, uns vaga-lumes piscavam no mato e a desesperança comprimia quase todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje não aconteceu nada naquele lugar simples, infame e esquecido; e Guirigó, agora, enquanto contemplava as estrelas deitado no chão, cabeça no meio-fio, pensava no seu sonho da noite passada. No tal sonho, uma mulata linda, com olhos grandes e sorriso no rosto, havia lhe avisado que hoje seria um dia muito especial. Guirigó, que era moleque onipresente em todo canto da cidadezinha, ficou inquieto esperando o tal acontecimento peculiar e promissor. Acabou não vendo nada demais acontecer. Nem suas habituais aventuras ele havia empreendido. Passou o dia perambulando por aí, a esmo, sem fazer nada, contando as horas, ansioso, e tentando preenchê-las com qualquer banalidade, pra hora da coisa especial acontecer. Mas agora, o dia passou, era quase meia-noite e a única coisa interessante era o brilho lá no alto das estrelas. Olhando pra elas, tão bonitas, lá em cima; cada uma mais cintilante e feliz que a outra, Guirigó quase acreditou que esse era o acontecimento peculiar. &lt;br /&gt;Há quem diga que o cotidiano é sublime e que cada dia é especial. Há quem acredite na potência poética da rotina. Talvez o acontecimento tão esperado por Guirigó tenha sido o dia em si, a manhã clara, promissora; a tarde quente, angustiante, banal, e a noite fresca, estranha e velha conhecida. Mas, é... naquele dia não aconteceu nada demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui a pouco começa outro dia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-802343033425190077?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/802343033425190077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=802343033425190077' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/802343033425190077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/802343033425190077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/04/rotineiro.html' title='Rotineiro'/><author><name>rafa ou el</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06989135177034880295</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-729715271061625207</id><published>2009-02-26T19:45:00.000-08:00</published><updated>2009-02-26T20:26:10.548-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Morno lodo. Céu azul e aves deslizando. Guirigó caminha para debaixo de uma árvore, recolhe a sombra para si e dorme, acorda atônito em meio à multidão, uma procissão o despedaça. São Sebastião ou São João Batista? São Judas Tadeu. Vira o rosto e vê o passarinho. Sabiá. Olha pra mão e tem estilingue - alguém bate em sua cabeça e pensa: estilingue não. Agora tem um alçapão e uma corda. Precisa de chamariz, algum inseto? Alguma fruta, algum grão? Coça a cabeça por uns segundos. Agora se vê de calça e blusa passada, de botão. Fila de banco? Fila de emprego? Um peso repentino e eterno lhe toma o corpo. Tem um espelho e se vê. Guirigó sem barba e sem camisa apanha de um empregado da venda. Um pote caído no chão já dizia tudo. Pega o pote e coloca no lugar, em seguida cai doente em uma cama e uma mulher cuida de sua vida, um primeiro, único, último amor, uma doença que cura, uma cura que se mistura. Curanda e curado na mesma cama da doença. Uma doença como a gravidez. Um filho preto e um fio de barba e a dita fila. Guirigó olha pra frente, um padre lhe faz o sinal da cruz e oferece a hóstia - aquele padre. Aquela igreja, aquele lugar. Guirigó homem casado e com filho. Guirigó o menino preto que encapetava a cidade. Guirigó é demais, Guirigó é demais, Guirigó não merecia tanta coisa. Nem as boas nem as ruins. No jornal, dentro de casa. É demais, Guirigó, não vai dar conta. Guirigó jogador, Guirigó pivetinho, que diferenças faz? Guirigó vai para o puteiro, aprende a comer as menininhas, Guirigó não sabe a diferença entre prazer e dor, tristeza e alegria. Guirigó recebe as coisas com demasiada sabedoria? Guirigó é a tua própria vida apenas com certa força na alegoria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-729715271061625207?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/729715271061625207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=729715271061625207' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/729715271061625207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/729715271061625207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/02/morno-lodo.html' title=''/><author><name>Brazil</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-1031041368866179983</id><published>2009-02-17T22:45:00.000-08:00</published><updated>2009-02-17T17:48:17.788-08:00</updated><title type='text'>Sexta-feira 13</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sexta-feira 13 nem sempre foi o dia de assombros, qualquer um caia muito bem; mas com a "globalização", até no interior, de localização desconhecida, essa data foi instituída como o dia do medo. Todos os velhotes da cidade que gostavam de contar histórias pitorescas todo tempo, guardavam as melhores para essas temerosas sextas. Fazia-se roda com fogueira até madrugada afora só pra assustar a pivetada que adorava uma dose de calafrios. Não havia Jasons, Freds ou outros assassinos em série, mas sim Sacis, Curupiras, Mulas sem cabeça, sereias etc., que não deixavam a desejar quanto ao intuito. Assim, numa dessas, Vó Mercinda, que era do grupo dos contadores, preparou o terreiro, rodeou-se pelas crianças e começou a narrar história nova.&lt;br /&gt;Com a moda dos &lt;em&gt;states&lt;/em&gt; de produzir filmes como “Batman Begins”, “Exorcista – O Início”, a idosa, muito da astuta, bolou gênese do famoso neguinho de uma perna só, de quem só se sabia breves relatos de como sucedeu-se sua estréia no mundo das entidades meta-humanas.&lt;br /&gt;Guirigó, moleque novo, que adorava uma brincadeira, já deixava qualquer um sobreaviso. Todavia, dessa vez, ele é quem estava mais aterrorizado. Seus olhos esbugalhados, hipnotizados com cada palavra, caniços trêmulos e a barriga contraída, nem parecia a velha barriga de verme de onde saltava o umbigo. Tudo isso porque o Saci, nessa história, se assemelhava muito com o pobre coitado, e que, por mau comportamento, fora castigado com o dano anatômico. Ardil bem feito pra por o encapetado do guri um pouco mais quieto. Se duraria por muito ou não era outro caso. Verdade é que no dia seguinte, sábado 14, Guirigó, ainda hesitava por o pé pra fora de casa com medo tremendo de ficar igualzinho ao monoperna.&lt;br /&gt;Tia Abigail, uma das cúmplices, nem de longe pensou que o plano daria tão certo, mas manteiga derretida que era, começou a ter dó ao notar o cagaço do sem-vergonha. “Cagaço”, era mesmo a palavra mais correta para descrever como o moleque se sentia. O que se viu, foi um Guirigó de alma diferente, cabreira, longe de qualquer similaridade com a habitual, a qual todos desejavam esconjurar. Contudo, com pena ou despenada, atitude geral foi manter a sacanagem por um considerável período.&lt;br /&gt;Não houve muito tempo e quem acabou pregando peça maior acabara sendo o próprio do endiabrado, apesar de que a essa altura mais conveniente seria chamá-lo de desencarnado. O menino adoecera tão rápido como lastro de fogo e ninguém soube o que de fato ocorrera. Fato mesmo foi que a criatura não agüentou o tranco e partiu pro lado de lá deixando os que desse ficaram, desassossegados.&lt;br /&gt;Guirigó, que nada valia muito enquanto vivo, tomou importância grande depois de morto. Talvez mais por causa de consciência pesada e covarde de gente supersticiosa do que por causa de saudades do infeliz. De qualquer forma, o assunto foi destrinchado em demasia até que o pretinho feio e desnutrido tomasse ares de santidade. Não se sabe ao certo quando a loucura começou, mas se podia escutar sobre eventos milagrosos creditados ao ex-pivete desacreditado. Milagre verídico foi o rumo que a história tomou. Uma estátua fora construída em sua homenagem e Guirigó, virara santo oficial de seu povo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-1031041368866179983?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/1031041368866179983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=1031041368866179983' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/1031041368866179983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/1031041368866179983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/02/sexta-feira-13.html' title='Sexta-feira 13'/><author><name>Sel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04378765184483924929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-6541657830262232952</id><published>2009-02-11T11:26:00.000-08:00</published><updated>2009-02-11T11:44:56.666-08:00</updated><title type='text'>Carnaval é fogo!</title><content type='html'>O tempo era de carnaval. Todo mundo se sentia por igual, irrestrito e festivo. Por lá a festança ainda não havia sido institucionalizada. Carnaval não é no mês de fevereiro, semana de festa com alegorias e adereços pra turista ver. Basta um gaiato bem alto gritar “È carnaval” e uma boa dúzia de fogos ribombar estrondosa pelo céu, que pronto, é carnaval! A notícia se espalha mais rápido que fogo em fio de pólvora, o boca-boca faz-se da maior e mais feliz utilidade, e quando dá-se conta, o amontoado de pierrôs, colombinas, batuqueiros, palhaços e bate-bolas, reis de baralho, bailarinas e princesinhas já tomou conta da pracinha e das vielas; e até os quintais maiores, dos senhores mais abastados, viram terreiro de samba e batucada. A felicidade passageira e fugidia enche o peito dos foliões, a tristeza é expurgada em bebedeiras homéricas; garrafas caem pelo chão, comadres ganham passadelas de mão nada comportadas, malandro faz ganho com a carteira do irmão e até o padre se fantasia de mulher, quem sabe pondo pra fora nesses dias de delírio coletivo seu desejo secreto e reprimido. O negócio é que a cidade incandesce em mil cores pelo céu e pelo chão, o cheiro do lança-perfume bota as virgens em delírio, e os sons, quase sempre desencontrados, dão ritmo à loucura coletiva e vivaz do povo, que goza dessa liberdade em liturgia, já esquecido das agruras na roça, dos comércios pouco lucrativos, das diferenças sociais e da seca e reles importância que a vida tem nesse lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As brigas estancavam e pululavam em cada canto da praça, os gritos e uivos de alegria enchiam a noite e as estrelas sumiam no céu, tão grande a luminosidade e ascendência dos fogos de artifício. Os confetes e as serpentinas, a purpurina, as cornetas e a alegria pareciam brotar da alma de cada um, e emanavam um cheiro de mofo, de felicidade guardada muito tempo lá no fundo, esquecida às traças e só trazida à tona nesses momentos extremos. Lá parecia que ninguém gozava daqueles efêmeros momentos de felicidade que gotejam todo dia pela vida de qualquer mortal. Lá a felicidade e a tristeza traziam consigo aquela cota de sem conta. Ou o tempo era de estafo, de picuinhas e cabeça baixa, ou chegava o carnaval, que podia ser mensal, semanal ou anual, e dava fim à mazela coletiva numa lavada de alma. É verdade que esse estado cotidiano de tristeza sem fundo não era assim tão evidente à olhos nus e frios;  naquele lugarejo tão pacato, tão adepto da sesta e da serenidade, os matutos, as comadres e até a gurizada mantinha maquiado no rosto um sorriso melancólico, um gracejo de felicidade ilusório, que só se tornava realmente verdadeiro e visceral quando um bom espírito de gaiato proclamava aos altos brados e ensurdecedores fogos de artifício a chegada do carnaval. A partir daí, tudo parecia permitido, e os habitantes possuídos por um espírito de amor e comoção festejavam o carnaval enquanto o mundo todo conspirava contra. Cabeça baixa, amores rompidos, seca na horta, falta de água pro feijão e dor-de-cabeça da mulher eram esquecidos, e à partir daí o que valia realmente a pena era a expurgação, os bailes proibidos; as brigas infundadas que faziam o sangue escorrer pelo rosto fustigado pelas agruras de uma vida sem ilusões.  A saga da noite sem fim na cama da mulher do irmão, ou a sobrinha que dormia com o marido da tia já eram sempre perdoados por antecipação pelo deus anônimo responsável por aquela comoção coletiva.  E estouravam os fogos abençoando em seita os habitantes no espírito da comemoração extasiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem sentado no meio fio assistia a tudo isso com o peito em chamas, com um sorriso frouxo de regozijo na cara, se sentindo nessas épocas, sim, em casa, era Guirigó. Naquele dias de carnaval tresloucado o moleque sentia inocentemente que as suas capetagens e maquinarias ganhavam um estatuto de permissão. Com toda aquela gente ali, irreconhecível, com a cidade assim, de pernas pro ar, as traquinagens que ele armava perdiam a importância, ou melhor, pareciam constitucionalizadas, parte fiel da inundação de loucura que tomava conta do lugar. E o moleque se ria e se divertia entrando de baixo da saia das mulheres, sambando desengonçado no meio do tumulto, batendo carteira dos desavisados, botando pé na frente e gargalhando cada vez que um bebum sem rumo se escangalhava todo de cara no chão. A felicidade do pretinho era tanta que o sorriso parecia que ia lhe rasgar a cara de tão grande, e os olhos imprensados ficavam tão pequinininhos quanto uma sementinha de mamão. E ele ria extasiado, e plantava bananeira e bebericava da pinga dos foliões e bolinava as moças desavisadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses dias de culto de felicidade coletiva o estabelecimento que mais lucrava no lugar era o puteiro. A cafetina era malandra e aproveitava a loucura geral, o esquecimento dos laços matrimoniais e sentimentais, e armava os maiores e mais lunáticos bailes que a cidadezinha já presenciou. Quando já suados, bêbados e cansados de tanto pular e brincar desde cedo debaixo do sol fustigante, a cambada rumava pro prostíbulo já roucos, tontos e carentes de censura, loucos para aproveitar as delícias que o meretrício tinha a oferecer. E foi um grupo que passava pela pracinha, já doidos de tanto dançar e gritar e pular, e que rumava pro famoso baile, que decidiu apresentar o lugar praquele pretinho doido, que se perdia, também já possuído pelo espírito lunático do carnaval, no meio da roda de samba. Guirigó, que não era bobo nem nada, rumou junto com os gaiatos pro puteiro, inquieto de curiosidade e ansiedade. Apesar de malandro, desconfiavam que o guri nunca tinha visto uma moça nua. Quando chegaram no antro, a festa já estava no auge e a cambada trocava suor e saliva iluminados por uma luz vermelha insana. E era nego sentado no balcão com puta no colo, nego caído no chão com puta em cima, e nego gritando e cantando e pulando e puta com os peitos pra fora, que Guirigó ficou muito impressionado e com vontade até de sair correndo daquele lugar. O moleque viu de tudo lá, mulher gorda com peito caído e rosto bonito, magrela com as costelas amostra, sem dente, mas com os olhos de um brilho solar, viu mulata rabuda que parecia ligada na tomada de tanto sambar e uma morena linda que contrastava seus olhos verdes e seu corpo harmonioso com o desbunde barato do lugar. O gaiato mais solto do grupo, e que havia notado o embaraço e o deslumbre medroso de Guirigó frente a tal novidade e loucura, decidiu descolar uma puta pra ele, pra levá-lo prum quarto lá em cima, onde o tumulto era menor e o moleque ficaria mais calmo, além de por tabela perder o cabaço que, segundo o pessoal, já havia passado da hora. A designada pra tarefa foi Ruth, uma ruiva dos peitos pequenos, uma bundinha respeitável, e dona de uns olhos azuis brilhantes; mas que perdiam a atenção pro nariz imenso que tomava conta do relevo de seu rosto. Diziam que ela era a puta mais carinhosa e atenciosa do lugar, e por isso mesmo a mais indicada para Guirigó que iniciaria, em meio aquela temeridade e insensatez coletiva, sua vida sexual. Chegado lá em cima com Ruth, o moleque era só tremedeira; seu descaso frente as convenções, sua natureza espevitada e seus trejeitos malandros haviam ficado lá fora, na rua junto com os foliões tresloucados, com os fogos loucos e as fantasias eloqüentes. Ficou impressionado com o vermelho muito vivo daquela boca que o mandava deitar na cama de lençóis já empapados de suor, e daquelas unhas, que acariciavam seu corpo num carinho relaxante, mas que só o deixava mais cabreiro. Quando a meretriz começou a despi-lo bem devagar, com um carinho maternal, Guirigó começou a relaxar e a se dar conta que seu pintinho começava a subir. Gostou da sensação e se deixou levar pelas carícias e sorrisos de Ruth, a ruiva; que já a esse ponto começava também a se despir. Só que quando Guirigó se deparou com a nudez da rapariga o tumulto foi geral. O moleque deu de cara com uma mata ruiva no ventre da mulher e se alvoroçou todo, muito assustado e descrente do que nunca tinha visto. Bradou e bradou a plenos pulmões que a boceta de Ruth estava pegando fogo. Se levantou num só pulo, sempre gritando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fogo! Fogo! Fogo! Tá pegando fogo! Tá pegando fogo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceu as escadas num pinote só e gritava e bradava e berrava fogo, fogo, fogo! E foi aquele rebuliço, aquela confusão no baile! Era pierrô bêbado correndo pra lá, derrubando a mulata da bunda grande pra cá, que caía por cima de capiau acolá. A puta que a essa altura fazia um strip pra galera, trepou mais e mais alto no ferro pra não ser também levada pela maré de bêbados assustadíssimos e malucos que saíam correndo numa onda de insanidade. E foi garrafa de cerveja quebrando no chão, e serpentina enrolando no pescoço, e peito caído pulando e gritaria e todo mundo repetia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fogo! Fogo! Fogo! Tá pegando fogo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a notícia de que lá em cima estava pegando fogo se alastrou tão rápido pelo puteiro que o saldo da confusão, entre mortos e feridos, foram mil trezentas e quarenta e cinco garrafas de cerveja quebradas e não pagas, oitocentas e trinta de pinga, no mesmo estado. Mil e quarenta e sete coxinhas, quinhentos e trinta e sete quibes, noventa e oito máscaras, setecentos rissoles, setenta e três chapéus, seiscentos e quatro pratos, quinhentas e vinte e sete máscaras de monstro, novecentas e oito embalagens de camisinha fechadas (fora as mil e três usadas), três mil copos, cinquenta e seis bolas de bate-bola, oitocentos cordões de havaiano, quinhentas e três perucas coloridas, quinze dentes, treze mulatos, cinco sararás, um assessor do prefeito, dois bêbados incontestáveis, o negão centroavante do time da cidade, cinco músicos e trinta e três putas jogados e pisoteados pelo chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A multidão que fugiu alarmada do baile no puteiro nem bem se deu conta de que era alarme falso. Na verdade, pouco estavam ligando. Depois de supostamente terem salvo sua vida, tinham mais e mais e mais motivo pra se largar à expurgação coletiva de ritmos, ritos, danças, bebedeiras e brigas que continuava e perdurou sabe-se lá Deus quanto tempo naquela cidadezinha perdida por aí, em algum lugar desse mundão. Guirigó? Guirigó dizem que ficou um tempo sumido do lugar por causa da confusão que armou. Há quem acredite que ele ficou foi com vergonha do cabaço que ainda perdurava e há quem diga que ele só seguiu o seu impulso. Sempre teve medo do fogo e preferiu não ir com ele, preferiu fugir rua afora, sonho afora pelo carnaval. Carnaval que naquele lugar é de rua, e não precisa de calendário. Faz-se num salão a céu aberto e com entrada franca, sem cambista nem desfile pra turista ver. No fim, Guirigó, de verdade, nem tinha participado do baile do puteiro, Guirigó só acredita no que é grande e no que é o todo, ruas e sonhos afora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-6541657830262232952?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/6541657830262232952/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=6541657830262232952' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/6541657830262232952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/6541657830262232952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/02/carnaval-e-fogo.html' title='Carnaval é fogo!'/><author><name>rafa ou el</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06989135177034880295</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-9047002792464601355</id><published>2009-01-26T19:40:00.001-08:00</published><updated>2009-01-26T16:08:24.406-08:00</updated><title type='text'>Dias de Domingo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um louco, todos chamavam aquele homem. Mas "louco", não era privilégio só seu. Vários que perambulavam pela praça ouviam o mesmo enfático apelido das muitas pessoas que ali passavam. Ele, por outro lado, não parecia ligar, continuava declamando suas poesias, competindo espaço com trechos bíblicos, proclamados fervorosamente pelo Pastor, era assim como se autodenominava o senhor, bem vestido, de terno e gravata. Nem parecia estar fazendo um calor dos infernos. Talvez esse mesmo fosse o motivo para tanta eloqüência. E é claro que o pobre homem, aos trapos, não fugia às difamações. Louco, era o mais singelo que conseguia proferir. Mas este mesmo, não escapava de bocas alheias. E como que para prevalecer a contradição, “Louco”, era o único a se manter na dele, apenas poetizando. E mesmo com tanta loucura, havia quem o quisesse ouvir.&lt;br /&gt;As pessoas o escutavam e extasiadas ficavam com tanta beleza. Contudo, a verdade é que ninguém se importava com ele. Todos diziam maravilhas, porém todos, sem exceções, prosseguiam suas vidas sem nem sequer saber quem era realmente o homem por debaixo daquela reputação de “celebridade às avessas”; uma criatura de barba volumosa, cabelos avulsos, roupas rasgadas e sujas que sempre estava na mesma praça, fazendo o que parecia mais gostar. Seu trabalho era esse, ele dizia: "Sou poeta".&lt;br /&gt;Entusiástico, inflamava sua pequena platéia fugaz e se podia ver um brilho em seus olhos, talvez de regozijo ou quem sabe, de tristeza. Uma incógnita, e ninguém demonstrava interesse em desvendá-la.&lt;br /&gt;Certo dia, após anos com presença marcante, o que predominou por aquela praça foi um vazio intenso. Os demais loucos ainda estavam em seus lugares, mas até Pastor sentiu falta do poeta. Não tinha seu rival favorito para achacar. Outros domingos foram passando e sua ausência se tornou permanente. E o que aconteceu com Poeta? Morreu, foi a versão mais comum e a menos fantástica, embora para causa não houvesse acordo. Muitas outras foram contadas. Uma delas relatava que era o ganhador da mega sena, que ainda hoje não se sabe a identidade. Imaginoso ou não, o fato é que o sumiço do dito cujo datava da mesma época do rebuliço.&lt;br /&gt;Com o tempo, até as noticias do vencedor misterioso, que seguiam caminhos contrários e contraditórios, cada vez mais se distanciavam daquele homem.&lt;br /&gt;Assim, dois anos se seguiram e a praça que entrara em reforma, adquiriu aspectos mais sociáveis e novos trabalhadores. Contudo, o pastor permanecia e era o louco de fama. E para não fugir dos bons costumes, escolheu novas almas pecadoras para suas práticas exorcizantes. Havia o vendedor de pamonhas, Seu José, que gostava de lhe fazer troça, o que vendia um produto de limpeza, cuja propaganda “Limpa até seu nome sujo no SPC” arrancava boas risadas dos que passeavam por perto; e tinha também o artista de rua que fazia mágicas e engolia quase tudo, até fogo; esse, o preferido. Pelo visto todos eles não sabiam o que era folga dominical, somente o senhor sempre bem alinhado parecia estar em dia correto. E muitas especulações percorriam a área para dar conta de tamanha fineza. A maioria das pessoas, que pouco ligava, queria é ver o circo que se formava semanalmente. O povo não mudara, a praça é que se tornara mais emocionante.&lt;br /&gt;Numa dessas confusões, a situação terminou saindo do controle e o engolidor de fogo partiu pra porrada com o digníssimo pastor sem nem se importar com sua idade, que beirava por volta dos 70, tampouco os transeuntes. De repente, o que se viu foi uma multidão incitando mais e mais a briga e alguns aproveitaram para dar seus ponta-pés e as crianças também queriam participar da brincadeira. Conseqüentemente, como num sumidouro, Pastor foi tragado em meio a toda àquela gente e só apareceu, depois da chegada da polícia, apenas em corpo imóvel.&lt;br /&gt;O sucedido foi que Pastor, nada incômodo, se achou no direito de estragar os afazeres do engolidor novamente, que por muitas vezes revelou dotes pacíficos. Mas dessa, para o azar dele, o engolidor tinha acabado de ser traído e se não bastasse, a maldita da traidora fugira com o seu amante poucos dias atrás; pense no mal-humor de cabra macho. Isso foi o que rolou de boato. Os dois policiais que deveriam fazer a segurança do local, saboreavam pamonha na hora do serviço e bem que deixaram a coisa se alastrar. Pouco se tinha dessas oportunidades e eles não estragariam a festa.&lt;br /&gt;Quando perceberam que a coisa ficara preta, resolveram tomar atitude, mas nem os berros do infeliz puderam ser mais ouvidos e todos já começavam a dispersar antes. O que avistou-se posteriormente foi um sujeito estirado ao chão, torto, sujo, de cara amassada e sem vida; nada parecido com o pomposo pastor. Certo, é que ele ficara mais farrapo que os próprios mendigos da redondeza. E, mesmo que o sabido era que a culpa não recaía apenas em um, o engolidor, além de corno, arcou com a ingrata missão de bode expiatório, para que o sentimento de justiça pairasse por sobre a região e os demais pudessem dormir satisfeitos. Porém, antes que a lua centralizasse o céu, a concentração rumava para a partida final da Copa do Mundo que seria transmitida pela tevê. Até o recém chegado na prisão pôde vibrar com o jogo. E no dia seguinte, todos já estavam preocupados em discutir sobre o novo acontecido. A primeira página de um dos grandes jornais estampava: “Guirigó salva Seleção e levanta a taça!!”.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-9047002792464601355?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/9047002792464601355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=9047002792464601355' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/9047002792464601355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/9047002792464601355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/01/dias-de-domingo_26.html' title='Dias de Domingo'/><author><name>Sel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04378765184483924929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-6114869253842114606</id><published>2009-01-20T19:47:00.000-08:00</published><updated>2009-01-20T22:45:15.532-08:00</updated><title type='text'>O não-diálogo que Guirigó escutou</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aonde Guirigó nasceu e viveu nunca chegou o sinal dos novos tempos. Inexistia algum manicômio, e a prisão era somente uma cela mal e porcamente conservada. A polícia não tinha muito trabalho. Lojas e estabelecimentos não passavam de vendas ou pequenas boutiques - no máximo. Nem mesmo os botecos eram muitos, mas - e isso é notável - estes dois ou três botecos que ali existiam recolhiam a corja de malfeitores e terminava por realizar o imprestável serviço institucional e disciplinar para o povoado. Geralmente os trabalhos para as autoridades locais se limitavam aos bares. A tarja preta da cidade era a cachaça. E os analistas, o confessionário e as rodas de novenas.&lt;br /&gt;De tal forma que aquilo era pouco para Guirigó. Não atoa que ele era o buraco negro que engolia aquilo tudo. A indisciplina do moleque comia todos. Nem cachaça nem reza dava conta. E ainda que houvesse os sinais dos novos tempos, para Guirigó não há novos tempos .&lt;br /&gt;Sua prisão era a prisão de todos. Se ele  era o único que isso compreendia? Tanto faz.&lt;br /&gt;Certo é que belo dia, Guirigó passava próximo da venda de Miguelito, um uruguaio misterioso que guardava dentro de casa muitas velhas quinquilharias. Não era daquele mundo aquela estranheza de guardar coisas, imensos baús e estantes. Sua venda era como uma qualquer, mas recebia periodicamente alguns compradores de fora, um deles era constante, um homem branco e alto que nunca conversava com ninguém. Chegava na venda e Miguelito logo fechava expediente para levar o comprador para dentro de casa. Essa atividade não soava ilegal para ninguém; de alguma forma todos sabiam que se trocavam eram as tais quinquilharias; o que ninguém compreendia era porque alguém de longe ia parar lá para comprar objetos mais antigos que os mais antigos moradores da região, e tudo sempre de uma forma que soava esquisito para o povoado, um excesso de formalismos e rigores, cuidados com as peças, um uso de um óculos estranho e o manuseio com flanelas, certamente muito estranho. Guirigó não dava a mínima para isso.&lt;br /&gt;E com essa indiferença ia passando próximo à venda de Miguelito e logo ia deparar com o boteco do Mário. Era como ir de uma esquina à outra na mesma rua, mas passando por uma praça -a  única praça - com suas árvores e pássaros ardentes de um festival bucólico, antes de chegar à outra esquina, Guirigó se distraiu com um passarinho pousado no calçamento: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sabiá ou João de Barro?&lt;/span&gt; De relance não reconheceu. Sentou-se e logo viu. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sabiá!&lt;/span&gt; E o pássaro bateu asas de súbito, como se a exclamação por pensamento do garoto assustasse o pássaro. Nisso, Gurigó viu dois fulanos que conversavam em pé de frente ao Mário´s. E nesse instante a JukeBox do bar entoa um sertanejo elétrico, ou seja lá o que aquilo fosse. A cena chamava a atenção do garoto, que recolhia uma certa calma naquela hora. É que já tinha cagado.&lt;br /&gt;Depois de alguns minutos, a jukebox pára de tocar e Guirigó consegue ouvir o que os dois capiais tanto trocava em palavras. Eram Vevé e Armando. O primeiro nada mais era que um pintor de paredes instalado a cerca de 3 anos na cidade. Como era um tipo de trabalho muito ordinário e específico, tinha de fazer outros serviços, geralmente de limpeza, para a população. Assim se tornou faxineiro da venda de Miguelito. Era Vevé quem contava para todos sobre as coisas miúdas e estranhas que se vendiam com os estranhos contatos do uruguiao. Falou-se certa vez em ouro, mas ninguém acreditou, pois afinal de contas, Vevé era outro estranho que não se conhecia muito acerca de seu passado na cidade, e muito provavelmente variava das idéias. O segundo, Armando, de vida um pouco mais fácil, era homem de algumas posses e certo prestígio. Nascido e criado na cidade, era o oposto espelhado de Guirigó. De porte bem apurado, de juventude ainda resistente em sua face, já conseguira se anoviar com a galante filha do grande fazendeiro da região, Coronel Leandro Genivaldo. O nome da moça não importa.&lt;br /&gt;E como se o franzino Guirigó não houvesse se dado conta, ouvia a conversa apurada dos dois. É que se a princípio não incomodasse o fato de estarem de pé, bêbados, eram duas figuras que se contradiziam entre si. Um pobre e coitado mesmo, e o outro, bem mais avançado do que rico. E era essa a graça toda. Tudo bem que não estavam bêbados a um ponto culminante, de enrolar a língua. A última coisa que havia na conversa era língua enrolada, pode ser que falassem uma língua diferente, por códigos, mas isso nem passava pela cabeça de Guirigó. Ele sabia o que tava acontecendo mesmo. Enquanto um, o humilde, dizia coisas do tipo:&lt;br /&gt;-&lt;span style="font-style: italic;"&gt;É que a vida é...a vida é a morte ao contrário né, né. É assim, a pasta de dente que a gente passa nos dente depois do de-comer, ela não tem nada da vida não, nada a ver com vida. É que se fosse entrar no viver a gente tinha era que entender de comê. Que comendo a gente vira o que é, a gente é o que come né, os tomate, os tomatiiin vermelio pra deixar as perna&lt;span style="font-style: italic;"&gt;s e os braços do jeito que o tomate é né. E por dentro a carne, tem que comer carne que é pra dar estrutura. E recheado com isso é o feijão, que é a sustança. Feijão e arroz! Há de comer muito arroz.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O outro&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;respondia na mesma entonação, mas em outro tempo-espaço, que só Guirigó era testemunha:&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;-Há de se ganhar dinheiro. Ninguém vive só porque come não. Se fosse pela picuinha de uma caça nós éramos tudo era caçador, até hoje. Tem é que trabalhar.  Arremeter as terra do de-comê pra nós, sabê plantá e sabê criá, mas sabê vendê também! Olhe. Sabe que sou da opinião, e minha opinião é singela, é das humildes, porque sou homem trabalhador, filho fiel do deus criador. Creio em deus pai, amado e de seu filho redentor. Ô, e quando eu era minino, eu ia era sê padre. É!!! Sê padre, queria usar batina, e falar bonito pro povo, reza em latim pra deus me ouvi. Mas aí, sem falar latim nem nada, eu aprendi, eu, me ouça, eu aprendi a escutar a voz de deus, e ele me disse, que eu devia era colher os frutos, casa com moça da terra, e prosperar os ganho. Isso é! Ele me disse, e eu ouvi, guardo até hoje em mim a voz divina. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;E Vevé tentava escutar, mas não entendia nada:&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;-&lt;/span&gt;Ah, mas se o deus é o divino, há de se não precisar de nada. A bênção tá dada. Se cê precisa é de um que-fazer que deus mandou, não é preciso mais nada. A vida num é dada assim não, não pra filho do diabo que nem nós. Cê tem o que comer, cê é abençoado, mas cê num tem, e tem fome, cê é filho do mal. A vida é do diabo, num é de deus.&lt;/span&gt;  &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tô errado? Quando o sol vai dá sua careta pra nós de manhã, isso deve ser alguma tramóia, ou de deus ou do diabo, ou dos dois! Mas que há, há. Onde já se viu ter a fome e não ter o de comer? E o sol, esse mesmo sol que arracha nossas cuca! Há, mas quem diga que nada cresce sem o sol e tem os que lá do mar se guiam pela lua pra voltar pra casa e pra pescar o pão nosso, mas onde já se viu, a lua que brilha o noturno, e o sol que não sussega nossa vista? Só pode ser tramóia! Só tramóia. Eu acho que tamo aqui porque somo castigado, filho do demo, a fome é o castigo meudeus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;E falava espalhando os gestos&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, &lt;/span&gt;uns gestos que ninguém conseguia entender. Aliás, Guirigó se ria, do gesto e da fala. Vevé era homem de preguiça, trabalhava o que devia, e tinha sua humildade sempre na frente. Mas o impecilho maior, ou era o seu julgamento dele e dos outros, ou o julgamento dos outros nele. Ele dizia isso porque sabia das dificuldades do Sertão, da vida no campo, e por isso fugia, vinha pra cidade, fazer o mínimo trabalho que fosse, qualquer coisa era melhor que trabalhar arando terra. Seu discurso era o mesmo que sempre ouvira.&lt;br /&gt;E começava Armando novamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eu fui criado pro que sou. Ah e se tudo for como tiver que ser, no fim ainda me torno governador. É que a vida de fazendeiro, do bom fazendeiro, não tem espaço na fazenda não. Lugar de arrendador é na capital. É com o mundo dos negócios. Eu sou homem de negócios, trabalhador, esperto. Você me aperdoe mas acho que não sirvo pra essa cidade não.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vevé ia fazendo hum-hum com a cabeça até o momento em que Guirigó quase se destrai com outro pássaro. Dessa vez era pardal ou tico-tico? O moleque não olhou pra ver, tava mais interessado no diálogo inusitado dos dois capiais. E eis que surge no entre-momento da distração um vendedor. Se põe em cena entre Vevé e Armando.&lt;br /&gt;Pisou na calçada, se apresentou com o nome de Neto, com uma rápida citação ao seu avô, dono de seu nome, Senhor Boécio Guimarães, Pernambucano, filho de um branco com uma índia e que teve a sorte de ganhar o nome de branco porque a índia além de aprender o português deixou o seu pai apaixonado. Neto levava a vida pela vida de eterno retirante, o que vem a ser o mesmo que vendedor. Não tinha outros compromissos a não ser para consigo. Conhecia grande parte do Brasil; do Amazonas ao Mato Grosso do Sul, do Maranhão ao Rio de Janeiro. Não conhecia mais porque dizia que tinha preguiça, e que já tinha conhecido o que lhe interessava e que gostava era do nordeste mesmo. Estava vendendo sandálias e tinha uma eloquência no modo de falar, que deixou até o próprio Guirigó com vontade de comprar uma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;-E na vida o que mais que você faz? Que mais que você faz além de andar? Olha que mesmo que ainda tenha do melhor cavalo e da melhor carroça, que tenha do melhor carro a motor, e possa andar de avião e tudo o mais, os pés ainda serão usados. E que trate bem seus pés então, que se tu é cabra, cabra homi, então teu pé é mais ainda! Nada nesse mundo tem a valentia dos pés! Olhe pro chão, pras pedra, esses pedregulho! Olhe pra esse sol, que calor, essa poeira levantando, e quem tá te sustentando esse tempo todo? ELE!!! Há de cuidar bem de teu pé. Vamo lá. É sandália da boa, minha gente, é sandália de côuro curtido. - &lt;/span&gt;E terminava as frases meio que cantando e empostando a voz. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;No final&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;acabou arrematando três sandálias, não, quatro! O Vevé bem que ficou com vergonha de só levar uma, mas era o que podia levar. Armando que levou as outras três. Teve até desconto, porque era compra a vista. Dizia que vida de fazendeiro merecia descanso para os pés, porque as terras eram muitas pra se caminhar. E disse que uma ia guardar pra quando fosse governador, e que ainda que fossem muito humildes, ele as usaria como homenagem ao povo que o elegeria. Terminada as compras, os três se juntaram para beber mais algumas cachaças&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;e conversarem sobre o que cada um sabia falar, e que Guirigó sabia muito bem. O que não deixava o moleque sossegar das idéias era o porque daqueles dois terem começado a conversar do nada, e ainda por cima num bar, já que dos mais inusitados dos encontros, esse era o maior, Vevé e Armando. Mas acabou se convencendo de que não tem porque mesmo e que nada mais propício do que&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;beber e conversar. Permanecia inexplicado para o garotinho curioso era o conteúdo da conversa, já que apesar de tanta troca de palavras, a última coisa que tinha sido feita, foi conversarem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-6114869253842114606?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/6114869253842114606/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=6114869253842114606' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/6114869253842114606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/6114869253842114606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2009/01/o-no-dilogo-que-guirig-escutou.html' title='O não-diálogo que Guirigó escutou'/><author><name>Brazil</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-2693570070746114628</id><published>2008-12-16T12:54:00.000-08:00</published><updated>2009-02-07T15:25:11.227-08:00</updated><title type='text'>Chuva Abençoada</title><content type='html'>Sol a pino, e o estômago se contorcia na barriga de Guirigó. Por essas bandas de cidadezinha é tradição almoço ao meio-dia, além de sesta abençoada de meia horinha na rede, só pra recobrar as forças e tomar coragem pra retomar a labuta brejeira e cotidiana. Guirigó ia por caminho velho conhecido, pela beira do campinho de pelada, agora vazio, já que a cambada de moleques peladeiros tinha sido convocada pelas mães pra filar o arroz com feijão. Pelada interrompida e Guirigó, que já não participava da pelada, ficou mais de fora ainda quando a hora foi do almoço. Ia agora beirando o campo, com sol quente na cabeça e a barriga roncando. A luz do sol, o tempo abafado, o ar pesado e a poeira do caminho pareciam fazer crescer sua fome. Quando simpáticas com ele, as beatas e comadres da vizinhança lhe ofereciam um pratinho de comida, raspa de feijão com carne dura, que bem ou mal sobrava, e que ele comia ali, sem passar pra dentro da casa da benfeitora. Mas hoje, enquanto transitava pela ruela, teve sua esperança por um prato frustrada. Nem Dona Carminha, talvez a mais simpática, e com certeza a que mais tinha pena do moleque, apareceu hoje. Na janela faltou, e não ofereceu pra Guirigó sua já famosa farofa com jabá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Guirigó, feito quem visse um anjo, teve a visão da salvação. Aquela mangueira carregada pra ele encarnava a figura de um pratão, bem forrado com rango que ele mais gostava. A tal mangueira, ia alto no quintal de seu Justino, e já da esquina da ruela apontava majestosa. E agora, em época de mangas aos montes, ela dava era das boas; coração-de-boi, sabe? Guirigó, rápido, rápido, se livrou do desânimo e da nostalgia que a fome já fazia pesar sobre sua cabeça baixa, e incorporou seu meneio matreiro e espevitado. Logo, logo se propôs a pular o muro de seu Justino, subir mangueira acima, e tratar de sua fome por meio daquela suculência de manga. O muro foi mole, o pretinho era astuto e esguio, além de encapetado. Só antes deu uma olhadela, não queria vira-latas a atrapalhar seu objetivo. Como não deu por nenhum, num pinote já estava agarrado no tronco da rainha carregada. Trepou, foi subindo, mas sentiu alguém chegando... Olhou pra trás, e deu de cara com um vira-latas franzino, que se aproximou e ficou observando sua escalada com cara de quem tinha vontade de latir, mas estava com preguiça. Afinal de contas, já chegara a hora da sesta, e até ele, depois de filar sua tigela de restos, se sentia no direito de um cochilo. Deitou por ali mesmo, e nem se ligou mais pra Guirigó; que a essa altura já ia alto e traçara um objetivo, já que desafio pouco pra ele era bobagem. Queria mesmo era catar a manga maior, seria seu troféu. Parecia até que já tinha se esquecido da fome, parecia que o novo desafio enchia seu peito e sobrepujava o ronco alto da barriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Justino, que saía pra varanda afim de tirar sua soneca, deu por conta do farfalhar das folhas, e pensou: “É passarinho! E pelo jeito é o dos grandes. Deve ser o Tié que a tempos quero engaiolar. Vou é armar minha arapuca.” E foi, de arapuca na mão pra debaixo da árvore, quando, pra seu espanto, deu de cara foi com aqueles caniços de carvão. Era o moleque encapetado, no qual há muito a cidadezinha mantinha os olhos atentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ô seu moleque, desce já daí que vai arrumar idéia de cair!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guirigó levou foi um susto, e deu uma escorregadela bem dada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu tô com fome, seu Justino. &lt;br /&gt;Despistou Guirigó, que já tinha era se esquecido da fome e só pensava mesmo no seu desafio de pegar a manga rainha, a grandona lá do alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa manga tá é dando cheia de bichos, seu moleque!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom é assim, que já vem com a carne dos bichinhos. Não se ligue, seu Justino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falou isso enquanto descascava uma das menores e mandava ver, pra dar uma enganada no estômago e seguir em frente na escalada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas... desça já daí, sua peste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que retrucou Guirigó, já com os beiços todos lambuzados do amarelo da manga:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não desço mas é mesmo. Tá boa por demais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse meio tempo, tinha era juntado umas mexeriqueiras e uns gaiatos que, acordados da sesta pela gritaria que ribombava pelo silêncio da ruela, vinham conferir qual era o motivo da agitação no quintal de seu Justino. Quando olharam para cima acompanhando a vista do dono da casa, logo reconheceram o guri que já ia bem alto, e o burburinho geral foi um “ah, só podia ser”, quase em uníssono.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Enquanto isso, Guirigó passava por perrengue inesperado lá em cima. Verdade mesmo é que aquela manga quente e bichada havia batido feito bomba na barriga do guri. Já ia lhe dando uma reviravolta nas entranhas e um suadouro frio pela testa. O incomodava também aquele bando lá embaixo, a perscrutá-lo, e com certeza cochichando más palavras sobre ele. Todo mundo maldizia os maus modos do moleque, e ninguém tratava de tentar ensiná-los. A intenção geral era: “tem que mandar esse moleque pra outros lados, só vive aqui pra arrumar confusão.” Apesar do moleque ser querido, o mais fácil era se livrar do problema, mandá-lo pra longe dos olhos e viver em paz na calmaria. Mas não, Guirigó ia lá em cima, e agora dera pra comer manga podre e trepar em galho mais alto de árvore gigantesca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - E agora, onde já se viu? Deu pra encher a pança de manga podre. Vai que pega uma lombriga, um verme brabo! Além de viver pentelhando nossas vidas, vai cair doente por aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Guirigó já não ouvia nada, passava era por aperto lá em cima. E ia se incomodando cada vez mais com todo mundo a fitá-lo, feito mico em extinção trepado na floresta. Além do mais, a vontade de cagar ia aumentando e o guri já não agüentava segurar. Deu uma olhadela lá para baixo, e como já ia insatisfeito com a audiência, baixou o trapinho que chamava de bermuda e mandou ver, satisfeito. Choveu foi merda sobre o grupinho lá embaixo; as fuxiqueiras, os curiosos, seu Justino e o coitado do vira-latas, que tirava seu cochilo alheio a todo burburinho. Derramou-se caganeira!, chuva sob forma de manga mal digerida, caíam do céu gotinhas informes e asquerosas. Foi a comida que ninguém quis dar a ele... o moleque se virou, ora bolas. Respingou e trovejou bosta a tarde inteira no quintal de seu Justino... até quando as estrelas já iam tomando conta, a merda continuava caindo sadia, lavando a alma da tietagem e adubando a terra da cidadezinha malfadada. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Verdade mesmo era que Guirigó encarnava o que ninguém queria ser. Moleque sem nome, família, nem educação. Moleque sem rosto, e sem físico. Mas Guirigó nem se ligava, nem era com ele. Se tinha parte com o mal, ou se era o mal em si, não se sabe. Verdade mesmo era que Guirigó cagava pra todo mundo. Subiu foi mais ainda, prum tal de infinito que agora apontava bonito no anoitecer vermelho de brisa quente. Foi em busca do seu objetivo, da sua capetagem; em busca da manga grandona, da rainha que seria o seu maior tesouro. Subiu foi em busca de munição, só assim ele podia cagar pra todo mundo, só assim ele era ele. O tal que ninguém conhecia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-2693570070746114628?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/2693570070746114628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=2693570070746114628' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/2693570070746114628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/2693570070746114628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2008/12/chuva-abenoada.html' title='Chuva Abençoada'/><author><name>rafa ou el</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06989135177034880295</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2503970553671704500.post-7696752189441767125</id><published>2008-12-07T17:53:00.000-08:00</published><updated>2008-12-07T18:26:59.893-08:00</updated><title type='text'>Apresentação de Guirigó</title><content type='html'>&lt;w:donotpromoteqf&gt; 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Não se satisfazia com pouca arte, com Guirigó tudo era demais. &lt;i style=""&gt;Um demônio&lt;/i&gt; diziam uns,&lt;i style=""&gt; um amaldiçoado&lt;/i&gt; diziam outros, tanto que por fim todos concordaram que não importando se Guirigó tinha parte com o mal ou se era ele o &lt;b style=""&gt;próprio&lt;/b&gt; mal, botaram um padre pra benzer a testa do garoto. Aquilo deve ter dado certo por volta de uns...20 segundos. No final da benzedeira o padre saiu foi se benzendo, com medo daquela capetagem toda passar por toque de pele. O que aconteceu foi que, como menino que era, Gurigó achou graça de ver &lt;i style=""&gt;homem de saia&lt;/i&gt; e levantou a batina do padre enquanto rezava alguma ave Maria. Problema pequeno perto do que Guirigó levantou mesmo: era que o padre era bem da moda antiga, não usava nada por baixo. E é claro que no quarto só estavam as beatas que iam para onde homem de batina fosse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Nesse dia, Guirigó, que andava meio odiado por quase todo mundo, até que voltou a ser bem tratado. Era que a mais última que ele aprontou tava fazendo a vizinhança rir horrores, e Guirigó bem que tinha alguma prática pra contar um conto. E dizia:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- &lt;i style=""&gt;Na hora que todo mundo rezava “bendito sois vos entre as mulheres” as beatas acabaram quase conseguindo o que mais queriam!&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i style=""&gt;- E por que não viram, menino?&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i style=""&gt;-Por que o padre tem a hóstia bem escondida!&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;E o toque da risada geral era proclamado por quem estivesse em volta do pretinho. Era bem querido o moleque, mas com ele não tinha um que não mantinha os dois olhos atentos. Certamente porque todos já tinham sido vítimas da criatividade sem fim de menino pobre e órfão. Guirigó nem tinha família. Era meio criado daqui, dali. Foi por um bom tempo ajudado pelas beatas, depois não foi mais. Do pessoal que sustentava ele, existia era mais pena do que carinho mesmo. Até porque, era assim que se exigia uma relação com ele. Quem ali teria carinho por alguém que não passava da cozinha de sua casa; Que era de rua? O mais econômico era ter pena mesmo, carinho se dá pra quem tem mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/m:defjc&gt;&lt;/m:rmargin&gt;&lt;/m:lmargin&gt;&lt;/m:dispdef&gt;&lt;/m:smallfrac&gt;&lt;/m:brkbinsub&gt;&lt;/m:brkbin&gt;&lt;/m:mathfont&gt;&lt;/m:mathpr&gt;&lt;/w:word11kerningpairs&gt;&lt;/w:dontvertalignintxbx&gt;&lt;/w:dontbreakconstrainedforcedtables&gt;&lt;/w:dontvertaligncellwithsp&gt;&lt;/w:splitpgbreakandparamark&gt;&lt;/w:dontgrowautofit&gt;&lt;/w:useasianbreakrules&gt;&lt;/w:wraptextwithpunct&gt;&lt;/w:snaptogridincell&gt;&lt;/w:breakwrappedtables&gt;&lt;/w:compatibility&gt;&lt;/w:donotpromoteqf&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2503970553671704500-7696752189441767125?l=oguirigo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oguirigo.blogspot.com/feeds/7696752189441767125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2503970553671704500&amp;postID=7696752189441767125' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/7696752189441767125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2503970553671704500/posts/default/7696752189441767125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oguirigo.blogspot.com/2008/12/apresentao-de-guirig.html' title='Apresentação de Guirigó'/><author><name>Brazil</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
